“Até que os leões tenham os seus próprios historiadores, as histórias de caça sempre vão glorificar o caçador”, provérbio africano. Em Angola é, precisamente, assim que actua o MPLA/poder ao impor aos demais a narrativa de heroicidade… É o único que tem heróis. Os outros, todos, são tidos como vilões.
Por William Tonet
O MPLA não admite. Não aceita. Teima em ofuscar. Rejeita o óbvio. Não aceita a crueza dos factos. Impõe a retórica partidocrata. Pela força das armas. Tem medo da verdade. A verdade sobre a chacina de 27 de Maio de 1977.
Neto, qual imperador impiedoso ditou as regras, a partir da sua cadeira-baloiço, no Futungo de Belas: “Não vamos perder tempo com julgamentos!” Seguiram-se 80.000 assassinatos de inocentes, sem direito a julgamento. Não houve nenhum tribunal militar.
Não havia lei marcial. Nem pena de morte.
Os lobos da mentira e os mercenários da “escrita Camões”, a partir de Portugal, andam em sentido contrário a verdade. Inventam falsos cenários e realidades, para branquear a insensibilidade de Neto e a sua tenebrosa polícia política: DISA!
O oceano por onde navega a cidadania dos povos e micro-nacões, que, ingenuamente, acreditou num país (pós-província de Angola, ex-colónia de Portugal), diferente, com Agostinho Neto, na presidência do país, esmoreceu, com a barbárie institucionalizada, em 1977. E, o sonho de uma Angola portentosa, com a exportação de produtos produzidos por angolanos, desmoronou.
49 anos depois, neste 27 de Maio de 1977, o regime está longe de recauchutar o “modus operandi”. Continua a impor a lei da força.
A CIVICOP, que muitos acreditavam ter objecto genuíno, não congrega. Exclui. Não quer a reconciliação mas a imposição. Com uma visão ocidental, acirra mais os ressentimentos das vítimas.
REFLECTIR NO 27 DE MAIO 2026
Ao dia de aniversário, deste ano, os sobreviventes estarão em profunda reflexão. Reflexão sobre o passado dantesco, nas fedorentas masmorras do regime. Reflectir o presente. Perspectivando o futuro sem covardia. Com coragem!
Homenagear com peito aberto, os nossos “camaradas – consofredores”, barbaramente assassinados, pela DISA dos Veloso, Pelinganga, Carlos Jorge, Wadjimbi, Cansado, Toni Marta, Mainga, Onambwe, Ludy Kissassunda, Zangado, Tony Laton, entre outros.
Infelizmente, o masoquismo de ontem, continua hoje, na geografia mental desta gente, ao vilipendiar a memória de muitos dos nossos, apresentando ossadas suspeitas. Abismalmente, suspeitas.
E isso por recusa de peritos independentes e vítimas verdadeiras, integrarem a CIVICOP. Assim, sem escrutínio de credibilidade, muitos dos seus actos fazem desabrochar a suspeição. Tudo por os factos mostrarem a recusa e falsidade da retórica governista.
O 27 de Maio de 1977 não foi, um conflito armado. Impõe-se a VERDADE!
Foi uma chacina contra a intelligentsia juvenil, que pensava país. Pensava construir uma Angola como potência regional, continental e mundial.
Agostinho Neto, com Lara, Onambwe, Ludy, pregava(m) o contrário. Era(m) acérrimo(s) defensor(es) do neocolonialismo e das teses nazistas de eliminação política dos adversários.
Forjaram um cenário de golpe de Estado, quando Nito Alves e Zé Van-Dúnem estavam com limitação de movimentos. Não podiam contactar com forças, nem reunir núcleos juvenis ou políticos, logo não colhe a tese de duas alas, como capacidade militar.
Apenas a ala de Agostinho Neto tinha armas para assassinar e esmeraram-se.
A forma como foi morta, Fernanda Digrinha Delfino, mais conhecida por Nandy Kassanji (Comissária Política do Destacamento Feminino), merece uma solene e sublime homenagem. Estava a dar a luz e, de repente, viu o quarto invadido por algozes da DISA, que a arrancaram da cama, antes mesmo de terem cortado o cordão umbilical. Puxaram-na rebentando o cordão. Infelizmente, o filho não morreu. Ficou sozinho. Ouviu-se-lhe os primeiros choros… Coberta de sangue, a mãe foi arrastada pelas escadas e levada para fuzilamento.
Horas mais tarde, os mesmos assassinos da DISA, foram buscar o marido: Mário Júlio Eduardo de Carvalho, Marito (sobrinho do bispo metodista, Emílio de Carvalho), que teve o mesmo destino.
O bebé de ambos sobreviveu. Hoje é um homem. Triste, por nunca ter recebido o carinho de nenhum dos progenitores.
A Elvira Maria Pires da Conceição, mais conhecida por Virinha, comandante do Destacamento Feminino foi, também, assassinada, acusada de conspirar contra Neto. Os algozes colocaram-na na carroçaria de uma carrinha fechada, viraram o tubo de escape, para dentro. Terá morrido fruto de intoxicação, por inalação de fumo.
Neste 27 de Maio de 2026, fica mais evidente, a necessidade de um Pacto do MPLA, para resolução do Caso 27 de Maio de 1977, onde algozes e vítimas possam estar frente a frente, para esgrimir argumentos, esbaterem ressentimentos, recalcamentos e lançarem as sementes da conciliação. Com esta virá a reconciliação, via para se abraçar e perdoar. Sem isso, o baú da arrogância, da lei da força, não conseguirá demover a maioria dos sobreviventes do 27 de Maio de 2026.


[…] A nossa fonte […]